SVG ou DXF para laser: qual usar em cada situação
A pergunta chega quase sempre depois do prejuízo: a pessoa vetorizou uma arte, mandou o arquivo para a máquina, e a peça saiu com metade do tamanho pedido. Ou o software abriu o arquivo vazio. Ou a hachura não preencheu nada. Em quase todos esses casos, a raiz do problema está na escolha entre SVG e DXF e no que cada um desses formatos carrega de fato.
Este guia não é uma comparação genérica de formatos. É o que muda na bancada quando você escolhe um ou outro.
O que cada formato realmente é
SVG
SVG nasceu para a web. É um arquivo de texto que descreve formas com curvas de Bézier, exatamente o mesmo tipo de curva que o Illustrator e o CorelDRAW usam internamente. Isso é ótimo: a curva é matemática, não tem resolução, e o desenho continua liso em qualquer ampliação.
O problema é a unidade. O SVG tem um atributo viewBox que define o sistema de coordenadas interno do desenho, e atributos width e height que dizem o tamanho de exibição. Nada obriga o arquivo a declarar essas medidas em milímetros. Um SVG pode dizer que tem 800 de largura e simplesmente não informar se são 800 pixels, 800 pontos ou 800 unidades arbitrárias. Cabe a quem abre o arquivo adivinhar.
DXF
DXF é formato de CAD. Ele foi criado para descrever peça de engenharia, e por isso a unidade é parte do modelo, não um detalhe de apresentação. Quando o DXF diz que uma linha tem 50, esse 50 é uma medida real do desenho, não um valor de tela.
Em compensação, o DXF é pobre em recursos gráficos. Ele não foi feito para descrever gradiente, transparência ou efeito visual, e o preenchimento de área não costuma sobreviver à importação nos softwares de laser do jeito que você esperaria. Para corte e gravação isso quase nunca é uma perda, porque o que a máquina precisa é o contorno — o resto é parâmetro, como o guia explica mais adiante.
O problema número um: escala
Se você só levar uma informação deste guia, que seja esta. A causa mais comum de peça errada não é parâmetro de máquina: é arquivo importado com o tamanho errado.
Acontece assim. O SVG foi gerado por um editor que trabalha em pixels. O software da máquina abre o arquivo, não encontra uma unidade declarada, e aplica um DPI assumido para converter pixel em milímetro. Se o editor que gerou e o software que abriu assumem valores diferentes, o desenho entra com uma escala que ninguém pediu. Ele não fica distorcido: fica proporcionalmente certo e do tamanho errado, que é o pior tipo de erro, porque parece correto na tela.
Vale entender por que isso é tão fácil de acontecer. O SVG foi projetado para ser desenhado em uma tela, onde o que importa é a proporção entre os elementos, não a medida física. Um mesmo arquivo aparece maior em um monitor e menor em outro, e para a web isso está certo. Só que a máquina não desenha em tela: ela corta material, e material tem medida. Quando o arquivo não traz a unidade, alguém precisa arbitrar — e esse alguém é um valor padrão escondido em alguma preferência do software.
Um DXF calibrado em milímetros elimina a etapa da adivinhação. A medida já está no arquivo, na mesma unidade que a máquina usa. É por isso que a plataforma oferece uma exportação que converte o SVG gerado em DXF calibrado em mm — e por isso exportar um arquivo que você já gerou não consome crédito: a exportação é conversão de formato, não um novo trabalho de vetorização.
A checagem que você deve fazer sempre
Independentemente do formato, faça isto toda vez que importar um arquivo, inclusive quando ele veio de uma fonte confiável:
- Antes de exportar, saiba a medida real de um elemento do desenho. Pode ser a largura total da arte, a altura de uma letra, o diâmetro de um furo. Qualquer coisa que você consiga apontar.
- Depois de importar no software da máquina, meça esse mesmo elemento com a ferramenta de medida ou olhando o campo de dimensão da seleção.
- Se não bater, corrija a escala do desenho inteiro em vez de redesenhar ou de ir puxando alça no olho. Um erro de escala é sempre uniforme.
A conferência leva alguns segundos e evita perder a peça inteira. E se você trabalha com encaixe, em que uma aba precisa entrar num rasgo com folga mínima, a checagem deixa de ser recomendação e vira obrigação: um desvio de escala pequeno o bastante para passar despercebido no olho é grande o bastante para o encaixe não fechar.
Curvas viram polilinhas no DXF
Aqui está a objeção técnica que sempre aparece: o DXF não representa curva de Bézier do mesmo jeito que o SVG. Na conversão, uma curva costuma virar uma polilinha, ou seja, uma sequência de segmentos retos muito pequenos que aproximam o traçado original.
Na teoria isso é uma perda de fidelidade. Na prática, na resolução em que uma máquina de corte trabalha, ela não aparece na peça. O feixe do laser tem um diâmetro, o material tem uma zona afetada pelo calor, e o acabamento da borda é definido por esses fatores, não pela quantidade de segmentos da polilinha. Uma aproximação com passo bem menor que a largura do corte é indistinguível de uma curva perfeita no material acabado.
Onde isso importa de verdade é na edição posterior. Se você pretende reabrir o arquivo e mexer no desenho, editar polilinha é bem pior que editar curva: os pontos de controle que deixavam você ajustar o traçado com dois cliques deixam de existir, e no lugar deles aparece uma sequência longa de vértices soltos. Mudar o raio de um canto arredondado, que numa curva é arrastar uma alça, vira retrabalho.
Daí a regra que resolve o assunto: guarde o SVG como arquivo de trabalho e trate o DXF como arquivo de saída para a máquina. A conversão é de mão única na prática — de SVG você gera DXF sempre que precisar, mas voltar de um DXF cheio de vértices para uma curva limpa é serviço manual.
Compatibilidade por software
Cada software tem sua relação com os formatos, e vale conhecer a do seu antes de padronizar o fluxo.
- LightBurn lida bem com SVG. É o cenário mais confortável: o arquivo entra, o desenho aparece, e ainda assim vale a checagem de medida.
- CorelDRAW também trabalha bem com SVG, o que faz sentido porque é um software de desenho vetorial antes de ser ferramenta de produção.
- EzCad, usado nas Fiber, tem relação melhor com DXF. Quando o arquivo é para gravação em Fiber, começar em DXF poupa discussão.
- RDWorks costuma preferir DXF. Em máquina de CO2 com RDWorks, o DXF é o caminho de menor atrito.
Duas ressalvas antes de você transformar isso em dogma. A primeira é que comportamento de importação muda entre versões de qualquer um desses programas, então trate a lista como ponto de partida e não como especificação: o teste que vale é o do seu computador, com a sua versão instalada. A segunda é que “abrir o arquivo” e “abrir o arquivo certo” são coisas diferentes. Um software pode importar o SVG sem erro nenhum e mesmo assim entregar o desenho na escala errada, que é exatamente o caso silencioso descrito acima.
A recomendação prática que sai daí: se o seu software aceita SVG sem reclamar e a escala confere, use SVG e mantenha as curvas. Se aparecer qualquer atrito na importação — arquivo que abre vazio, desenho que chega fora de escala toda vez, elemento que some —, exporte em DXF e siga o trabalho, em vez de ficar caçando configuração no software. Padronize o que funcionou e pare de decidir formato a cada arquivo.
Preenchimento e hachura não viajam dentro do arquivo
Esta confusão custa muito tempo de gente que está começando. A pessoa vetoriza um logotipo preto, abre o arquivo na máquina, vê apenas o contorno na tela e conclui que a vetorização veio errada.
Não veio. Hachura é configuração da máquina, não propriedade do vetor. O arquivo entrega a fronteira da forma; quem decide se aquela região vai ser percorrida por linhas de preenchimento, com qual espaçamento, em qual ângulo e em quantas passadas, é a camada de parâmetro do software da máquina.
Isso é uma vantagem, não uma limitação: significa que o mesmo arquivo serve para gravar em inox, em acrílico e em MDF, mudando só o parâmetro. Se o preenchimento viesse embutido, cada material exigiria um arquivo diferente. Como configurar a hachura de fato está em o guia de hachura no EzCad.
Contorno aberto e contorno fechado
Existe, sim, uma propriedade do arquivo que decide se dá para hachurar: o contorno precisa estar fechado.
Um caminho fechado é aquele em que o traço volta ao ponto de partida, delimitando uma região com dentro e fora. Só com isso o software consegue calcular o que preencher. Um caminho aberto — uma linha que começa em um ponto e termina em outro — não tem interior, e por isso a hachura simplesmente não tem o que preencher.
O sintoma clássico é a arte que parece fechada na tela mas tem uma falha microscópica em algum ponto do contorno, invisível no zoom normal. A máquina não preenche, ou preenche uma região diferente da esperada, dependendo de como o software trata um caminho que não fecha. Quando a hachura sair errada e o parâmetro estiver correto, o suspeito número um é um contorno aberto — vale dar zoom no traçado e procurar a falha antes de mexer em qualquer outra coisa.
Para corte, aberto e fechado também muda tudo: um contorno aberto vira um traço, não um recorte. É o que separa uma linha gravada de uma peça que se solta da chapa.
Regra de bolso
| Quero fazer | Use | Por quê |
|---|---|---|
| Corte com medida crítica ou peça encaixada | DXF em mm | A unidade real está no arquivo; sem adivinhação de escala |
| Gravação em Fiber pelo EzCad | DXF | Relação mais estável do software com o formato |
| Trabalho em CO2 pelo RDWorks | DXF | Caminho de menor atrito na importação |
| Trabalho no LightBurn | SVG | Importa bem e preserva as curvas |
| Editar, ajustar ou remontar a arte | SVG | Curvas de Bézier com pontos de controle editáveis |
| Contorno de recorte para plotter | DXF | É o formato que o fluxo de recorte espera |
| Guardar o arquivo mestre do cliente | SVG | De SVG você gera DXF depois; o contrário perde qualidade de edição |
Como isso aparece na plataforma
A Comunidade Laser entrega SVG e DXF com medidas em milímetros, prontos para LightBurn, RDWorks, EzCad e CorelDRAW. Na prática você vetoriza uma vez e escolhe o formato conforme o software da bancada — exportar um arquivo já gerado não consome crédito, então dá para levar os dois formatos para a máquina e usar o que importar melhor, sem custo adicional por tentar. No StickerAI, o contorno de recorte sai especificamente em DXF, porque é o que o fluxo de plotter espera.
Nada disso substitui a etapa anterior: arquivo bom começa em imagem boa. Se a arte que chegou do cliente está pequena, borrada ou com fundo complicado, o formato de saída é o menor dos problemas — um DXF perfeito de um contorno ruim continua sendo um contorno ruim. Vale ler como preparar a imagem para vetorizar antes de culpar o vetor, e conferir os modelos prontos quando o trabalho não exigir uma arte exclusiva.
Continue lendo
A ficha que usamos na produção para copo térmico inox branco — potência, velocidade, frequência e hachura de cada uma das três passadas — com a explicação de por que o valor é esse e o truque da bucha entre passadas.
A ficha que usamos para placa de inox escovado — potência baixa, velocidade lenta, espaçamento 0,01 mm e uma passada única — com a tabela de ajuste de velocidade por lente e o motivo de cada escolha.
A caixa de diálogo Hachura tem 24 campos e a maior parte deles você configura uma vez e nunca mais toca. Este guia separa o que muda no dia a dia do que é ajuste de instalação, e explica o sintoma visual de errar cada um.
