Hachura no EzCad: o que cada um dos 24 campos faz de verdade
A caixa de diálogo Hachura do EzCad tem 24 campos empilhados numa janela pequena, com rótulos traduzidos de forma bem literal. Quem abre pela primeira vez mexe em três coisas, vê o resultado piorar e fecha a janela — e depois vive com um preenchimento mais ou menos aceitável, sem saber qual campo responde pelo defeito que aparece na peça.
A janela tem duas naturezas misturadas. Uns poucos campos mudam a cada trabalho porque dependem do material e da arte: potência, velocidade, frequência, ângulo, espaçamento e tipo de hachura. Os outros são ajuste de instalação— calibra uma vez para a sua máquina e não toca mais. Saber em qual grupo cada campo está já resolve metade da confusão. Os rótulos abaixo aparecem exatamente como estão no EzCad em português, traduções estranhas incluídas, como Cros-Enchimento e OFF luz Delay.
Os três tipos de hachura
O Tipo de hachura define o caminho que o galvo percorre para preencher a área. Cada tipo tem consequência direta de tempo e de aparência.
Unidirecional
O laser marca uma linha, apaga, volta em vazio e marca a seguinte — sempre no mesmo sentido. É o mais lento, porque metade do movimento é retorno improdutivo. Em compensação, todas as linhas começam do mesmo lado, então erro de atraso se repete idêntico e o preenchimento fica regular. É o tipo mais seguro enquanto os atrasos não estão calibrados.
Bidirecional
O laser marca indo e voltando, aproveitando o retorno. É bem mais rápido, e é o que torna viável rodar várias passadas sem multiplicar o tempo de máquina. O preço é que expõe erro de atraso: com os delays descalibrados, as linhas de ida e de volta não se alinham e a borda ganha serrilhado. Borda esquerda deslocada em relação à direita não é problema de hachura — é atraso.
Anel
O preenchimento acompanha o contorno de fora para dentro, em anéis concêntricos. Útil quando a textura precisa seguir o formato: letras grossas, brasões, formas orgânicas. Em área grande e retangular gera muito mais mudança de direção e fica mais lento que bidirecional.
Campos básicos
São os que aparecem direto na janela. A terceira coluna descreve o que acontece na peça quando o valor está errado.
| Campo (EzCad) | Unidade | O que faz / sintoma de errar |
|---|---|---|
| Permitir | — | Liga a hachura para aquela camada. Desligado, o EzCad marca só o contorno e a peça sai com o desenho vazado. |
| Objeto de Computador | — | Trata o conjunto selecionado como um objeto único no cálculo do preenchimento, em vez de hachurar cada forma isolada. Errado, o miolo que deveria ficar vazado sai preenchido. |
| Ir uma vez em torno | — | Faz o feixe contornar uma vez a área hachurada, antes do preenchimento. Desligado, a borda ganha aspecto de escada, porque só as pontas das linhas de hachura definem o limite da área. |
| Cros-Enchimento | — | Cruza o preenchimento, alternando a direção entre camadas. Desligado, várias passadas apenas aprofundam as mesmas linhas e o resultado fica listrado. |
| Tipo de hachura | — | Unidirecional, Bidirecional ou Anel, como descrito acima. |
| Ângulo | ° | Direção das linhas de preenchimento. Alternar o ângulo entre passadas é o que dá área sólida; repetir sempre o mesmo deixa estria visível quando a luz bate na diagonal. |
| Espaçamento | mm | Distância entre uma linha de hachura e a seguinte. Aberto demais, aparece listra no meio da área; fechado demais, só custa tempo de máquina, porque o diâmetro do feixe já cobre a diferença. |
| Rapidez | mm/s | Velocidade de varredura do galvo. Lento demais concentra calor e queima a borda do traço; rápido demais não entrega energia suficiente e a marcação sai apagada. |
| Potência | % | Percentual da potência da fonte. Subir potência não é o mesmo que ganhar contraste: em material pintado, excesso derrete a tinta em vez de removê-la e a borda ganha rebarba. |
| Frequência | KHz | Taxa de repetição dos pulsos, em milhares por segundo. Frequência baixa concentra mais energia por pulso; alta distribui. Alta demais lava a marcação, que fica acinzentada em vez de sólida. |
| Atraso de abertura | µs | Ajusta o instante em que o feixe abre em relação ao início do movimento. Ver a seção sobre atrasos abaixo. |
| OFF luz Delay | µs | Compensa a inércia no fim da linha. |
| Atraso de marcação | µs | Espera o galvo estabilizar ao terminar o segmento. |
| Canto atraso | µs | Compensa a mudança brusca de direção. |
Campos avançados
Ficam na parte de baixo do diálogo e quase ninguém abre. Vale conhecer: alguns resolvem defeitos que parecem problema de potência.
| Campo (EzCad) | Unidade | O que faz / quando mexer |
|---|---|---|
| Marcar Contorno | — | Marca o vetor original junto com o preenchimento. Dá borda nítida em letra fina, que só com hachura sai com a lateral irregular. Ligado junto com Ir uma vez em torno, a borda recebe duas passadas e o traço engrossa, comendo detalhe pequeno — escolha um dos dois. |
| Seguir Borda | — | Faz o preenchimento acompanhar o formato da borda em vez de parar reto contra ela. Melhora acabamento em forma curva. |
| Quant | — | Quantidade de vezes que a hachura é aplicada dentro da mesma marcação. Não confunda com o número de passadas da ficha. |
| Distância Linha | mm | Distância entre linhas usada pelos modos que trabalham com conjunto próprio de linhas, independente do espaçamento principal. |
| Offset Borda | mm | Afasta ou aproxima o preenchimento da borda do vetor. Resolve o preenchimento que escapa um fio de cabelo para fora do contorno, ou que deixa uma folga junto à borda. |
| Offset Inicial | mm | Desloca onde a primeira linha de hachura começa. Ajuste fino para quando ela encosta na borda e sai mais forte que as demais. |
| Offset Final | mm | Mesma lógica do inicial, aplicada ao fim do preenchimento. |
| Redução Linhas | mm | Encurta as linhas de hachura nas duas pontas, para evitar acúmulo de energia onde o feixe desacelera — a causa da borda mais escura em área grande. |
| Nº Repetições | — | Repetições do padrão de hachura. Aprofunda sem mudar potência, útil quando o material não tolera mais energia por pulso. |
| Distância Loop | mm | Distância entre os anéis quando o tipo é Anel. É o equivalente do espaçamento para a hachura concêntrica. |
Os quatro atrasos: por que eles existem
Esta é a parte que mais gera parâmetro copiado sem entendimento. Os quatro campos em microssegundos — Atraso de abertura, OFF luz Delay, Atraso de marcação e Canto atraso — não têm nada a ver com o material. Eles existem para compensar a inércia mecânica do galvo.
Dentro da cabeça galvo há dois espelhos girados por motores, e espelho tem massa. Quando o software manda o feixe se mover, o espelho não parte instantaneamente na velocidade final: acelera. Quando manda parar, não para no mesmo instante: desacelera. O laser, por outro lado, liga e desliga eletronicamente, numa escala de tempo muito menor. Os quatro atrasos existem para alinhar esses dois relógios, e é por isso que são medidos em microssegundos: a defasagem que produz um defeito visível na peça é dessa ordem de grandeza.
Daí a consequência prática: como descrevem o cabeçote e não o material, esses quatro valores não pertencem à ficha de um material específico. Potência e velocidade de outra pessoa servem de ponto de partida; os atrasos, não.
Atraso de abertura, e por que ele é negativo
No padrão da ficha ele está em -300 µs. O sinal negativo assusta quem vê pela primeira vez, mas é justamente o ponto: valor negativo antecipaa abertura do feixe em relação ao início do movimento — o laser começa a emitir enquanto o espelho ainda está ganhando velocidade.
A razão de antecipar é que a fonte também tem tempo de resposta: entre o comando e o feixe em potência plena passa um intervalo. Abrindo antes, o laser chega ao início da linha já emitindo de forma estável, em vez de subir de potência durante os primeiros milímetros.
O erro nesse campo é fácil de reconhecer porque afeta o início de todas as linhas, sempre do mesmo lado da área. Ou aparece um ponto mais forte ali, ou aquele lado sai mais fraco que o resto do preenchimento. Qual dos dois você vê depende da resposta da sua fonte, e é por isso que o valor se acerta na peça de teste, não copiando o número de outra máquina.
OFF luz Delay
É o inverso: quanto tempo o feixe continua ligado depois do comando de fim de linha. Curto demais, a linha termina antes da borda e aquele lado da área fica mais claro. Longo demais, sobra energia na desaceleração e aparece uma caudano fim de cada linha — o mesmo defeito do início, espelhado.
Atraso de marcação
Segura o comando seguinte para dar tempo de o galvo estabilizar depois de concluir o segmento. Curto demais, o próximo movimento começa com o espelho ainda oscilando e o fim do segmento anterior sai arrastado ou deformado. Longo demais não estraga a peça, só custa tempo de máquina — e numa hachura de centenas de linhas esse custo se paga a cada linha, então um valor exagerado alonga bastante o trabalho sem melhorar o resultado.
Canto atraso
Atua nas mudanças bruscas de direção. Sem ele, o galvo corta caminho na curva, porque não inverte o sentido instantaneamente, e o canto sai arredondadoem vez de vivo — defeito típico em letra com serifa e em contorno de quadrado: o desenho está certo no arquivo, mas a peça sai com as quinas amassadas. Valor alto demais tem o efeito oposto e queima o canto, porque o feixe fica parado ali.
Nenhum dos quatro se acerta no chute. Grave um quadrado preenchido de teste, com hachura bidirecional, e leia o defeito por onde ele aparece: diferença sistemática no começo das linhas é abertura; cauda no fim é OFF luz; quina redonda é canto. Mexa em um campo por vez e grave de novo — alterar dois ao mesmo tempo torna impossível saber qual deles resolveu. É um ajuste que se faz uma vez por máquina.
Nada disso funciona sobre contorno aberto
Existe um pré-requisito que anula todos os 24 campos: a hachura só preenche caminho fechado. O EzCad decide o que é dentro e o que é fora do contorno para calcular o preenchimento. Se o vetor tem uma extremidade solta — dois pontos que deveriam se encontrar, separados por centésimos de milímetro — essa decisão não existe.
O resultado aparece de duas formas. Ou a forma não preenche e sai só o contorno, o que faz muita gente procurar erro em Permitir. Ou o preenchimento vazapela abertura e invade a área que deveria ficar limpa. Nos dois casos, mexer em potência, espaçamento ou ângulo não muda nada — o problema está no arquivo. Traçado automático sobre imagem ruim é a origem mais comum desses caminhos abertos, junto com arte que passou por conversão entre formatos. O que a imagem precisa ter para vetorizar com contorno íntegro está em como preparar a imagem para vetorizar.
Onde a plataforma entra
Calibrar hachura é trabalho de bancada e não tem atalho: o teste no material fecha a conta. O que dá para eliminar é a outra metade do problema — chegar no EzCad com um vetor em que a hachura tenha onde trabalhar. A Comunidade Laser recebe a imagem e devolve SVG ou DXF com medidas em milímetros, prontos para importar. Com o vetor resolvido, sobra só o que este guia cobre: identificar o campo responsável pelo defeito em vez de mexer em todos.
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A ficha que usamos na produção para copo térmico inox branco — potência, velocidade, frequência e hachura de cada uma das três passadas — com a explicação de por que o valor é esse e o truque da bucha entre passadas.
A ficha que usamos para placa de inox escovado — potência baixa, velocidade lenta, espaçamento 0,01 mm e uma passada única — com a tabela de ajuste de velocidade por lente e o motivo de cada escolha.
SVG é formato de web, DXF é formato de CAD. A diferença aparece na hora que o arquivo entra no software da máquina e o tamanho não bate. Como escolher, o que checar depois de importar e por que hachura não viaja dentro do arquivo.
